Há
muitos anos planejo voltar a escrever. Não vou nem falar das mil desculpas para
a protelação eterna, pois são as mesmas que há anos uso para me manter
sedentária, ou seja, de fato indesculpáveis.
Nesse
ano peculiar da minha vida, onde me vi obrigada a passar um grande tempo sem
fazer nada (teoricamente), ao pensar que o “tempo livre” poderia ter sido
melhor aproveitado, penso de forma consciente que é o melhor que eu poderia ter
feito nesse momento. Sem cobranças, ao menos nesse período, já que a minha vida
sempre foi permeada por elas, nos mais diversos aspectos.
Nesse
contexto, tenho aproveitado para analisar as minhas perdas. Sabe aquelas perdas
que todos nós temos, sejam as menores e quase imperceptíveis do dia a dia,
sejam as maiores e mais doloridas? Perdas no sentido mais abrangente possível.
É em todas elas que tenho pensado, em seus mais diversos espectros.
Ouço
o álbum “New Adventures in Hi-Fi”, do fabuloso REM. Para mim, uma perda, não
apenas porque a banda deixou de existir, mas porque não consegui assisti-los ao
vivo.
Desde
o final do ano passado, as perdas têm sido o tema central da minha vida, apesar
de serem presenças inerentes à vida de todos nós. Assisti quieta e solitária a
perda da minha própria vitalidade, esvaindo-se cada dia mais, como água
escorrendo pelo ralo – não qualquer ralo, mas um ralo limpo, em perfeito
estado, daqueles em que a água é sugada, tamanha a força da gravidade a puxando
– e assim, tornando-me cada vez mais uma criatura sem vida, apesar de viva.
Ainda,
além de mim mesma, uma das pessoas mais importantes da minha vida também me
disse que era hora de ir embora: minha avó materna. A turrona e rígida filha de
europeus, ironicamente acusada por sua filha de ser mais gelada que um iceberg,
sim, me ensinou o que era o amor. E dessa vez ela precisou partir. Não me
esqueço dela um dia sequer, e hoje vejo que talvez seja a pessoa que mais me
amou nesse mundo doido. Era um amor devotado, incondicional, talvez o amor que
a filha dela disse que não recebeu durante toda uma vida. Foi a maior perda que
já sofri na minha vida, e dói todos os dias, pois me sinto muito mais
vulnerável sem ela nesse mundo.
Estaria
eu pressentindo de alguma forma que isso iria acontecer logo naquele momento?
Pergunto porque mergulhei num mundo tão obscuro alguns dias antes dela morrer,
inclusive com sonhos vívidos e altamente exagerados por três dias consecutivos, e todos
na minha cidade natal, lugar que tanto abomino, e onde ela ainda morava.
Somente
tenho certeza de que as perdas são a tônica desse período pelo qual atravesso,
não necessariamente e apenas no sentido ruim ou pesado. Talvez seja a velha
coisa do ciclo de se desfazer do que não seja mais necessário, mas dessa vez a
coisa toda veio de forma bastante devastadora, e isso tem tornado tudo muito
difícil e dolorido.
Não
vou entrar no mérito e clichê daquela teoria de que recebemos a cruz do tamanho
que conseguimos carregar, pois acho isso bastante equivocado e simplista.
O
que me interessa no momento é pular para a fase seguinte, mas sei que ainda
tenho que caminhar um pouco mais para poder enxergar a luz que tanto tenho
buscado. Ando bastante inerte ainda, mas essa fase, em especial, tem mexido com
todo o meu ser de forma nunca vista antes: estou me presenteando com um tempo,
mas sei que as mudanças e atitudes terão que ser mais pontuais e concretas.
Todas devem ser convergentes, no sentido de aprender a lidar melhor com as perdas,
e – por que não? – com as crises.
Acredito
naquele pensamento oriental de que crise é sinal de oportunidade. Porém,
dispenso outro velho clichê no sentido de que as perdas nos tornam sempre mais
fortes, pois a minha ruína momentânea com certeza não me mostrou isso. Sim,
fiquei e ainda estou fragilizada, e não tenho vergonha nenhuma de assumir isso.
Passo por um momento absolutamente ruim da minha vida, que, sem fazer maiores
dramas, nunca foi mesmo fácil.
O
que busco, vivendo essas perdas de forma bastante entregue dessa vez, é saber
um pouco mais de mim, mergulhar nesse mar com mais profundidade e assim, tornar
as coisas um pouco mais suaves, buscando pelo caminho as melhores armas para
enfrentar toda essa tempestade.
O
álbum rolou inteiro, sempre me acalentando, e acabou de acabar.
Vai
passar.